Segue uma entrevista (um trecho) de John Stott (foto) à revista Cristianismo Hoje
“Evangelismo Com Um Toque A Mais
John Stott reflete sobre nossa situação passada e futura.
Um evangélico é um cristão simples e comum. Situamo-nos no centro do cristianismo histórico, bíblico e ortodoxo. Por isso podemos recitar o Credo Apostólico e o de Nicene sem temor. Cremos em Deus Pai, em Jesus Cristo e no Espírito Santo.
Tendo dito isso, há dois aspectos que quero enfatizar: por um lado, a preocupação com a autoridade e, por outro, a salvação.
Para os evangélicos, a autoridade é Deus, que falou de modo supremo em Jesus Cristo. E isso vale também para a redenção, ou salvação. Deus agiu em e através de Jesus Cristo para salvar os pecadores.
Creio ser necessário que para os evangélicos acrescentar que o que Deus falou em Cristo e no testemunho bíblico sobre ele, e o que Deus fez em e através de Cristo são, ambos, para usar o termo grego, hapax – que significa de uma vez por todas. A palavra e a obra de Deus em Cristo são definitivas. Imaginar que podemos acrescentar uma palavra sequer à palavra ou à obra dele é um desprezo imenso pela glória única de nosso Senhor Jesus Cristo.
Você não mencionou a Bíblia, e isso pode surpreender algumas pessoas.
Na verdade eu mencionei, mas você não notou. Falei Cristo e o testemunho bíblico sobre Cristo. Mas a ênfase realmente distintiva repousa em Cristo. Se você quer assim, pretendo passar a convicção de um livro para uma pessoa. O próprio Jesus afirmou que as Escrituras dão testemunho dele. A principal função delas é testemunhar de Cristo.
Parte da implicação do que você diz é que os evangélicos não devem ser um povo com inspiração negativa. Nosso verdadeiro foco deve ser a glória de Cristo.
Creio firmemente nisso. Cremos na autoridade da Bíblia porque Cristo a endossou. Ele se coloca entre os dois testamentos. Olhando para o passado, o Antigo Testamento, vemos que ele o confirmou. Olhando para a frente, para o Novo Testamento, aceitamos por causa do testemunho dos apóstolos sobre Cristo. De forma deliberada, ele escolheu, nomeou e preparou os apóstolos, para testemunharem sobre ele. Gosto de ver Cristo no centro, confirmando o antigo e apontando para o novo. Embora a questão do cânon do Novo Testamento seja complicada, em geral somos capazes de afirmar que o que é canônico é apostólico.
Em quê a posição dos evangélicos mudou durante os anos de seu ministério?
Olho para trás – fui ordenado há 61 anos – e lembro que quando comecei na Igreja da Inglaterra, os evangélicos eram uma minoria desprezada e rejeitada. Os bispos não perdiam a menor oportunidade para nos ridicularizar. Nos 60 anos seguintes, vi o movimento evangélico na Inglaterra crescer em tamanho, em maturidade, com certeza em erudição. Por isso, penso em termos de influência e impacto. Saímos de um gueto e nos colocamos em posição predomínio, lugar muito perigoso.
Você pode comentar sobre os perigos?
O orgulho é o perigo sempre-presente que se coloca diante de nós. Em muitos aspectos, é bom sermos desprezados e rejeitados. Penso nas palavras de Jesus: “Ai de vocês, quando todos falarem bem de vocês”.
Voltando ao hapax, é um conceito que acarreta humildade. A essência da fé evangélica é muito humilhante. William Temple disse: “A única coisa minha com que contribuo para a redenção é o pecado do qual preciso ser redimido”…“